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4 de dez. de 2014

DIA 34 – ARICA, CHILE

Pobres de nós, acordamos sem saber o que nos aguardava. O caminho de Huara a Arica foi certamente o mais tenso de toda a expedição. De início tudo belo, tudo tranquilo. Porém logo entramos em uma rota que beirava as montanhas dos Andes onde de um lado era o barranco e do outro o precipício e por muitos quilômetros sem nenhuma barreira de segurança. A para trazer ainda menos tranquilidade, muitas cruzes indicando acidentes fatais. Mas a aventura não se limitou a isso, somado a tudo isso havia os ventos mais fortes de todos os quase 7 mil quilômetros. Houve um certo momento em que eu já não conseguia tombar a moto o suficiente para enfrentar as rajadas de vento lateral, e pedi a Mel que também fizesse peso para o lado e mesmo assim a moto era levada para o outro lado da pista. Eu não sabia se era mais arriscado diminuir a velocidade e parar ou acelerar. Quando atravessamos a fronteira provincial o guarda nos parou para averiguar documentos. Como em todo o resto da viagem, o guarda foi cordial e não criou nenhum problema, até nos aconselhou cautela nos próximos quilômetros, pois ainda enfrentaríamos ventos fortes vindos do litoral.
Depois da fronteira provincial começamos novamente a subir e descer montanhas no deserto. Estas já eram bem mais íngremes do que qualquer outra que havíamos encarado até o momento. A moto muitas vezes precisava subir em terceira ou até segunda marcha, porém sempre se desempenhando bem. Até que no alto de uma das montanhas escutamos e sentimos um estalo forte na moto. Ela estava em terceira e finalizando a subida. Prontamente freei e a desliguei, guiando para o acostamento. Descemos e descobrimos a tragédia. A corrente saiu da roda traseira. Tive o mesmo sentimento que quando em Montevideo, quando o pneu furou. Tirei a bolsa de ferramentas da mala de tanque, me xinguei mentalmente por nunca ter checado a tensão da corrente e procurei as ferramentas para afrouxar o pinhão e poder colocar a corrente de volta. Parece fácil para quem tem conhecimento, mas foi extremamente difícil para mim que sou leigo no assunto. Colocamos a moto no cavalete e pedi a Mel que fizesse peso na frente da moto para eu poder afrouxar o pneu. Meu maior medo era que caísse vinte peças e eu não soubesse colocar de volta, como aconteceu em Montevideo. Depois de algum tempo consegui, com muito esforço, colocar a corrente e ajustar a tensão. Quis fazer um teste antes de subirmos na moto e cantar vitória, levando ela desligada alguns metros afrente. Cerca de dois metros depois, clec! A corrente saiu de novo. Não acredito, pensei. Lá fui eu fazer todo o trabalho de novo tentando manter a calma na medida do possível. O calor de quase 40 graus e os carros que passavam buzinando e caçoando de nós dificultavam a missão. Corrente colocada novamente, novo teste, corrente sai novamente. Notei que quando ela se movimentava inclinava para o lado, o que fazia sair da roda. E não houve maneira de corrigir aquilo, ainda mais para quem nunca sequer tinha prestado atenção na corrente a não ser para lubrificá-la. Desisti do conserto e concordei com Mel em irmos andando e levando a moto até a próxima cidade, que por sinal ficava a 37kms de distância. Claro que não seria possível mas nenhum filho de Deus adotado queria parar para nos ajudar e já não sabíamos o que fazer. Mas nem isso deu certo. Quando a moto andava 3 metros a corrente travava a roda tornando impossível move-la. A saída seria apelar e se jogar na frente de algum carro. Passadas três tensas horas debaixo daquele sol escaldante do deserto, uma caminhonete vermelha passou. Acenamos mas ela não parou. Eu, estando já nervoso, virei pra trás e mostrei o dedo do meio para a caminhonete que naquele momento desacelerou e fez meia-volta. Rezei para que não tivesse visto o dedo. A caminhonete era de uma mineradora, dentro estava um rapaz chamado Juan Pablo. Depois de contarmos o ocorrido ele disse que também não entendia nada de mecânica para nos ajudar, mas poderíamos tentar colocar a moto na caçamba da caminhonete e ele nos levaria até Arica. Aceitamos no mesmo momento, ambos coçando a cabeça por vermos que certamente a moto não caberia na caçamba. Juan Pablo direcionou a traseira da caminhonete contra um barranco de pedras, assim ficaria mais fácil (haha) colocarmos a moto para dentro. Como a bendita Suki não podia se mover por estar com a corrente presa na roda traseira, tivemos que carrega-la no braço. Só posso dizer que fiz esforço o suficiente para 2015 inteiro. Na primeira tentativa colocamos a moto de ré. Sobrou metade da moto para fora da caminhonete e não haveria como prendê-la. A tiramos para fora e tentamos novamente com a moto de frente e sobrando um pouco da traseira dela para fora da caminhonete. Juan Pablo tirou da manga duas cordas e começou o processo de amarrar a moto firme o suficiente para que não ficasse sambando na caminhonete. Fui auxiliando no processo enquanto Mel colocava toda a bagagem dentro da caminhonete. Feito as amarras, entramos todos na moto e partimos. Eu e a Mel ambos rezando para tudo quanto é santo de moto para segurar a pobre Suki naquela caminhonete. Eu evitava, mas na minha mente eu podia ver a cena da corda se soltando e a moto despencando pela estrada e montanha abaixo. Mas nosso santo é forte e uma hora depois chegamos em Arica. Juan Pablo conseguiu com dois policiais rodoviários o contato de um mecânico chamado Marco. Guiado pelas direções de Marco, achamos a oficina. Nós três tiramos a moto da caminhonete, agradecemos e nos despedimos de Juan Pablo e Marco tratou de chamar um de seus mecânicos para verificar nossa moto. O rapaz, chamado Cristian, prontamente sentou ao lado da moto, na beira da rua e começou o extenso processo de verificar que diabos estava acontecendo. Já era 5 da tarde e ambos eu e a Mel não tinhamos comido absolutamente nada e não tinhamos mais que o equivalente a 10 reais. A razão de estarmos com quase nada de dinheiro é que o bendito mapa físico que eu usava indicava Arica como parte do PERU, mostrando a fronteira um pouco abaixo da cidade. Porém Arica fica no CHILE. Por isso nosso calculo de finanças teria sido perfeito, se o Chile tivesse terminado em Huara.
Cristian nos informou que havia um lugar perto onde vendiam marmitex com arroz e frango pelo equivalente a 5 reais. Disse que podia ir comprar para nós já que não conhecíamos a vizinhança. Saiu de moto e pouco depois retornou com as marmitas. A mecânica tinha dois rottweiler enormes que certamente eram os guardas durante a noite. Ambos estavam presos nos fundos do galpão mas o cheiro de caca de cachorro estava por toda parte, forte o suficiente para te dar enjoo. Mas a fome era tanta que nem o cheiro de caca iria me impedir de devorar aquele marmitex. Não demorou muito até Cristian consertar a corrente da moto. Na verdade foi tão rápido que eu estava certo que a corrente iria sair novamente. Me falou para dar uma volta para testar. Receoso, liguei e saí bem devagar só tendo coragem de acelerar duas quadras depois. Voltando, perguntei o que havia acontecido mas ele falava num espanhol tão rápido que não entendi uma palavra sequer. “Ah, entendi” era a tática usada quando eu não entendia. Agora vinha a parte mais triste, o preço. Perguntei como iriamos pagar, pois só tínhamos dinheiro no cartão. Ele respondeu que não iria cobrar nada, em auxilio à nossa expedição. Se o mecânico de Calama tivesse pensado assim certamente ainda teríamos dinheiro.
Passado a tensão mecânica, fomos procurar um lugar para dormir pois já eram quase 6 da tarde. O GPS indicava um último povoado antes da fronteira chamada Villa Fronteira. Decidimos arriscar lá. O vilarejo ficava bem na costa e era repleto de campings privados, mas nenhum deles aceitava cartão. Quando ficamos sem opções, paramos em uma esquina para pensar no que fazer. Foi quando um carro verde parou e um homem perguntou se estávamos perdidos. Respondi que não e contei nossa situação. Ele disse que era arquiteto e tinha uma casa da qual estava trabalhando e estava quase finalizada. Ofereceu-nos passarmos a noite lá, pois era segura, tinha eletricidade e água. Agradecidos, aceitamos a proposta. Nos apresentamos e ele disse que seu apelido era Mincho (Mintcho). A casa ficava apenas a duas quadras de lá. Era de fato um lugar seguro. Ele nos mostrou os cômodos e disse que o melhor lugar para ficarmos seria o quarto do andar de cima. Chamou o guarda da casa e nos apresentou. O guarda ficava numa casinha dentro do terreno, ao lado da obra. Pediu minha ajuda para tirarmos um colchão de dentro de uma sala e levarmos até o quarto na casa, para podermos dormir. Depois ele puxou uma extensão para termos energia no quarto. Mincho, que já havia saído, retornou para nos fazer um convite. Disse que estaria fazendo naquela noite uma paella, pois era aniversário de sua esposa e teria amigos convidados. Ficamos muito contentes e honrados com o convite. Ele me deu a direção até sua casa, que não ficava longe de lá, e partiu. Combinei com a Mel irmos as 20 horas. Passei todo o restante do tempo imaginando a bela paella que nos aguardava, depois de dias comendo miojo.
Usei pela primeira vez na viagem minha camisa xadrez para ocasião. Eu não estava errado em traze-la pois sabia que cedo ou tarde alguém nos faria um convite que exigiria uma roupa que não fosse camiseta empoeirada de estrada. Andamos até a casa de Mincho e fomos muito bem recebidos por ele e por todos que lá estavam. Enquanto ele preparava a paella numa grelha no jardim, ficamos conversando com seus amigos na mesa da varanda da casa. Conhecemos um casal de Santiago com seus filhos, a esposa e filha de Mincho e posteriormente um outro casal. Todos muito simpáticos e interessados sobre nossa viagem. Cantamos parabéns, comemos paella com lagostas, tomamos cerveja chilena, vinho chileno, comemos bolo com sorvete e por último um café. Saímos super satisfeitos e felizes, além de um pouco embriagados. Todos nos acompanharam até perto da casa onde estávamos. Mincho nos mostrou o restaurante que estava construindo e ficamos todos contemplando o belo céu até o frio espantar todo mundo. Mal me lembro de voltarmos para a casa e cairmos na cama, mas de uma coisa eu estava certo: tivemos muita, muita sorte!


RODADOS NO DIA: 236 KMS
TOTAL RODADOS:  6841 KMS

POR DO SOL EM ARICA


MINCHO COM MEL 




E AGORA?



MEDO!!!



3 de dez. de 2014

DIA 33 – HUARA, CHILE

Arica ainda estava cerca de 600 kms de distância e certamente não iríamos fazer tanto em um só dia, por isso resolvemos escolher uma cidade pequena no meio do caminho. Huara seria a primeira cidade de volta à nossa rota original. Antes dela estava Humberstone, destino obrigatório pois era nada menos que uma “cidade fantasma”. De Calama pegamos uma pequena ruta de volta à ruta 5 Pan-Americana. Subimos ela toda até chegarmos em Humberstone, próxima a Iquique. Humberstone havia se tornado um ponto turístico no Chile, por isso havia todo um controle de entrada e saída e o local era mantido como uma cidade-museu. As entradas custaram o equivalente a 25 reais para os dois. Passamos pouco mais de uma hora e não conseguimos conhecer nem metade da cidade. Os únicos funcionários estão no controle de entrada e saída pois na cidade em si não havia uma alma viva. Visitamos várias das casas abertas ao público, tiramos muitas fotos e seguimos viagem.
Não muito longe de Humberstone estava Huara, uma pequena cidade com paradas para caminhoneiros. Avistamos dois hotéis. Desci da moto para perguntar os preços, o primeiro custava 100 reais o quarto e o segundo 60 para um quarto muito bem equipado com TV a cabo, frigobar e uma suíte com banheira (e ducha quente). Tinham também uma garagem para guardar a moto, o que facilitou ainda mais a escolha. Depois de dias de noites mal dormidas e desconforto finalmente tivemos uma trégua.


RODADOS NO DIA: 364 KMS
TOTAL RODADOS:  6605 KMS






2 de dez. de 2014

DIA 32 – CALAMA, CHILE

O dia 2 de Dezembro foi certamente o dia mais tenso da viagem. Quase tudo que podia dar de errado, deu. Mas também tivemos muitos momentos de sorte, como sempre. Saímos de Antofagasta cedo, após tirarmos algumas fotos no recife com a maré baixa. Tracei rota até Iquique tanto no GPS quanto mentalmente usando o mapa físico. Na hora de sair da cidade de Antofagasta o GPS me mandou seguir adiante pela avenida costeira atravessando toda a cidade até uma rota litorânea que levaria até Iquique. Ignorando as direções do GPS resolvi fazer outro caminho, saindo da cidade por onde entramos e continuando a rota Pan-americana para depois pegar outra estrada que leva a Iquique. Seria um caminho um pouco mais longo, porém me parecia mais seguro já que outros viajantes haviam me dito que a rota costeira era bem complicada e com muitas rajadas de vento lateral. Num certo ponto da rota haveria uma intersecção que eu deveria me atentar para não sair da ruta 5 pois o outro caminho levaria a uma direção fora de nossa rota, até Calama. Não sei exatamente o que aconteceu mas eu não vi a intesecção e tomamos este caminho errado. E só me dei conta disso longe o suficiente para não querer voltar. Haveria uma segunda intersecção afrente que nos levaria de volta a nossa rota original. Pois eu também a perdi e seguimos pelo caminho errado. O GPS já não estava ajudando pois traçava rotas que iriam tornar a situação ainda pior. Resolvi continuarmos e pousarmos em Calama para no dia seguinte voltarmos ao caminho correto e seguir até Arica.
Neste ponto eu já estava tenso e bravo comigo mesmo por ter errado o caminho duas vezes. Minha outra preocupação era o combustível. O GPS indicava um posto de gasolina que não existia. Não havia garantia que o próximo posto indicado estava lá, especialmente estando literalmente no meio do nada. Num certo ponto avistei o tal posto e paramos lá para abastecer e comer algo. Comprei uma garrafa de suco que era tão rígida que resolvi depois usa-la como reservatório de combustível. Seria 1 litro e meio a mais. Enquanto estávamos no posto sentados tomando suco apareceram três motos de viajantes brasileiros. Conversamos, tiramos fotos e cada um tomou seu rumo.
Cerca de vinte quilômetros depois do posto parei para tirar o intercomunicador e ligar o iPod para ouvir um pouco de música, caso contrário iria adormecer. Pilotar numa reta sem fim com deserto de um lado, deserto de outro, não é tarefa fácil. A monotonia traz sono até para os mais resistentes. A música sempre me ajudou a ficar acordado, pois eu podia até cantar alto junto à musica e nenhum ser vivo iria me ouvir desafinando.
Cinco minutos depois avistei de longe um pedaço enorme de lona preta que provavelmente caiu de algum caminhão. Era a única coisa além de areia e céu em nossa vista. Fixei os olhos com receio do pior, apesar do plástico estar fora da pista e não haver vento no momento. E o pior aconteceu: um pé de vento arrastou o plástico exatamente em nossa direção como se a moto tivesse o raio de tração da Enterprise. Não consegui desviar a tempo muito menos frear. A lona se prendeu debaixo da moto nos fazendo girar 180 graus e nos inclinar lentamente até cairmos e sermos arrastados por alguns metros. O bom Deus fez isto acontecer quando estávamos em baixa velocidade, cerca de 80 kms\h, pois se estivéssemos mais rápidos poderia ter sido muito pior. No momento da queda pensei na segurança da Mel em primeiro lugar e depois da moto. Acho que todo motociclista passar por isso, a segurança própria vem quase sempre em segundo ou terceiro lugar. Alguns carros que passavam já pararam e vieram nos ajudar. Ajudaram a Mel a se levantar e depois a mim. A moto vazava muito combustível. A levantamos rapidamente levando para fora da pista para só então averiguar os estragos. A Mel teve um ralado leve na perna e a jaqueta rasgada. Eu ganhei um belo ralado no braço esquerdo e na perna esquerda (já tinha um no joelho direito da primeira queda na Argentina). A jaqueta fez um tremendo estrago, a blusa que estava por dentro dela também e a calça ganhou alguns rasgos também. Nossas cabeças não chegaram a tocar o solo por isso não houve dano nenhum nos capacetes. Como a moto havia caído em cima de mim tive um queimado na canela esquerda que não deixou marca. Minha polchete rasgou. A bolsa da Mel também. A moto quebrou o pisca dianteiro direito. A lâmpada desapareceu e a tampa laranja voou pra longe. O fio de energia do GPS parou de funcionar, como se não viesse mais energia da bateria da moto e quando tentei ligar a moto também não houve resposta. Algo havia acontecido com a bateria. Tirei a tampa e visualmente não achei nada de errado, mas sendo eu leigo no assunto não poderia dizer bem o que havia acontecido. Passado o susto, organizamos mais uma vez a moto, guardei a tampa da seta na polchete e comecei a empurrar a moto descida abaixo para pegar no tranco. Algumas tentativas depois ela ligou. Fui mantendo ativa até ambos subirmos para só então seguirmos viagem até Calama. Teríamos que averiguar o que estava acontecendo com a moto lá.
Nossa experiência atravessando o deserto do Atacama não foi exatamente das melhores. Por toda a extensão do deserto haviam cruzes e flores indicando alguém que havia morrido lá. Não as contabilizamos mas em cinco dias foram tranquilamente mais de mil. A energia de lá não me pareceu boa e ambos não nos sentíamos bem-vindos. Independente da crença de quem esteja lendo o blog acho que pode compreender o que digo. Foi como aquele dia na pousada abandonada, você pode sentir uma força maior não te querendo lá. Todo santo dia quando botamos a moto na estrada fazíamos uma oração pedindo proteção no dia e agradecendo pela recebida no dia anterior. Depois do acidente fizemos mais uma vez uma oração e continuamos, ainda um pouco assustados. O plano era pararmos em um hospital em Calama para averiguar os ferimentos, mesmo leves. Porém quando chegamos à cidade nos esquecemos completamente disso tendo em vista que tínhamos que resolver a pane da bateria da moto. Calama era mais uma cidade grande e caótica do Chile, que como todas as outras iguais nos fazem querer sair logo de lá. Não demorou até encontrarmos em uma esquina uma loja e oficina de motos. Parei com a Suki em frente à oficina e após contar o ocorrido para um senhor ele já mandou outro rapaz ir olhar a moto. Vinte minutos depois e tendo desmontado todo o banco e bateria o rapaz mexeu bastante na parte elétrica até conseguir faze-la funcionar. Quando perguntei o que havia ocorrido ele falou tão rápido que não entendi uma palavra sequer. Voltamos a colocar todas as coisas de volta a moto e na hora de pagar a conta a facada não foi de leve.  Duzentos reais pelo conserto, a troca de alguns fios, a lâmpada da seta e a troca de óleo. Nem preciso dizer que o preço foi “especial” para estrangeiros e mesmo com muita persuasão não teve choro nem vela.
 Sempre preferimos cidades pequenas pela segurança e pelo preço inferior. O GPS indicava que a apenas 15 quilômetros de Calama havia uma cidadezinha. Resolvemos ir até lá apenas para descobrir que a cidade já não existia mais e havia se tornado uma propriedade particular de uma mineradora. Eu não estava disposto a voltar para Calama portanto resolvemos ir até o posto de gasolina ali ao lado, na beira da estrada e pedir se podíamos armar nossa barraca na área atrás do posto para passarmos a noite. Aceitaram e assim o fizemos. Só tivemos que lidar com o fato de não nos permitirem usar o banheiro (o que gerou uma breve discussão pela manhã). Preparamos miojos na espiriteira e dormimos com muito frio.


RODADOS NO DIA: 218 KMS
TOTAL RODADOS:  6241 KMS

















1 de dez. de 2014

DIA 31 – ANTOFAGASTA, CHILE


Acordei receoso que a moto não ligaria facilmente, após ter enfrentado um frio de quase zero grau. Mas que nada, a Suki não me deixou na mão. Ligou de primeira! Completei o tanque com a gasolina que tinha no galão reserva, organizamos as coisas na moto e pegamos a estrada.
Nada de novo, deserto de um lado, deserto de outro. Tínhamos ainda 350 kms até Antofagasta e no meio do caminho tinha uma tal de Taltal, que segundo o relato de um moto viajante no Facebook, era infinitamente melhor que Antofagasta. Pois bem, no fim das contas acho que o fulano que disse isso era bem doido. Taltal foi simplesmente uma das cidades mais horrorosas que já vi. E tinha a praia mais horrenda e mal cuidada da Terra, com areia negra, entulho e lixo por toda parte. Paramos no centro de Taltal, estacionei a moto e pedi a Mel que esperasse junto a ela enquanto eu ia caminhando até a próxima quadra para ver se achava um lugar barato para comermos. Encontrei um lugar onde vendiam marmitas por cerca de 5 reais cada. Comprei dois com diferentes misturas em cada e ao sair de lá avistei um supermercado. Para minha sorte este supermercado tinha produtos bem baratos. Comprei sopas de caneca por 60 centavos, sopa de panela por 1,20 e miojos por 1 real. Abastecido, voltei para a moto e fomos até a praia conhecer finalmente o oceano Pacífico e comermos o almoço. Fiz a nobre burrada de entrar com a moto até a praia com a areia fofa como neve. Subimos em umas ruínas e lá comemos as marmitas com uma plateia de cachorros de rua nos assistindo lambendo os beiços. Os presenteamos com um restinho do frango e macarronada, vencidos pela minha dó com os animais de rua.
Antes de sairmos de Taltal fomos até o único posto de gasolina da cidade para lá o frentista dizer que não iria abastecer nosso galão. Não quis dizer a razão, o que me fez sair de lá xingando alguns pares de palavrões. Deixamos a cidade concordando que tinha sido uma experiência um tanto quanto ruim e certamente o pior destino da expedição. Com 8 litros de gasolina no tanque seguimos viagem sem nenhuma grande surpresa. Pouco antes de Antofagasta o GPS já indicou a escultura da Mão do Deserto. Fizemos uma paradinha lá para as fotos e continuamos. O sol se punha e nada da cidade. As 20:10 a noite chegou e com ela um frio tremendo de bater os dentes. Eu já não enxergava nada e o reflexo das luzes dos veículos piorava a situação. Meia hora depois finalmente chegamos à entrada de Antofagasta. Parei para colocar os óculos e tomei a rota até a cidade sem ter a menor ideia de onde iríamos passar a noite. Procurei por hospedagens no GPS e ele indicou um motel não muito longe da entrada da cidade. Entramos na cidade chegando até a costa, tomei a esquerda por uma pista costeira e a apenas uma quadra antes do motel avistamos um camping. Parei a moto e fui lá perguntar o preço. Cerca de 20 reais para cada pessoa. Para desencargo de consciência quis ir ao motel também saber o preço. Custava o dobro. Voltamos ao camping e lá nos instalamos. Éramos os únicos lá. As condições do lugar eram razoáveis, tinha um bom espaço para cada acampamento com luz, eletricidade e uma churrasqueira, além de ser tudo coberto. Só não tinha água quente e os chuveiros não funcionavam. Resultado: banho de caneco após esquentarmos uma boa quantidade de água numa chaleira elétrica. Fizemos vários miojos, nos esbaldamos de comer e fomos dormir.


RODADOS NO DIA: 367 KMS
TOTAL RODADOS: 6023 KMS











30 de nov. de 2014

DIA 30 – DESERTO DO ATACAMA, CHILE

Acordamos no domingo cedo e nos preparamos para partir. A senhora nos ofereceu café da manhã com chá e pães com manteiga. Antes de irmos embora ela saiu e voltou com um saco de azeitonas pretas e uma garrafa de água mineral. Juntou aos lanches que havia preparados para nós para a viagem e nos entregou. Exatamente como uma avó faz. Agradecemos, nos despedimos e pegamos a reta.
Passamos o dia como nada ao nosso redor a não ser areia e pedras. Os ventos fortes e redemoinhos de areia eram assustadores. A cada 100 kms fazíamos uma parada rápida para esticarmos as pernas e dar um descanso pra moto. O dia se manteve o mesmo durante todos os 409 kms que percorremos. No entardecer resolvemos parar, pois a próxima cidade estava muito longe. Avistamos um estabelecimento abandonado. Parei a moto na lateral e fomos investigar. Aparentemente era uma pousada chamada La Bamba, toda feita de madeira com todas as portas e janelas bloqueadas, exceto duas portas laterais que davam para quartinhos que dentro tinham camas velhas enferrujadas e outros itens que davam à situação um ar de filme de terror. Porém, eu podia ver que dentro da pousada seria (aparentemente) seguro para passarmos a noite (e grátis). A única forma de entrar seria através de uma janelinha minúscula do quartinho exterior, que daria acesso ao interior da casa. Como a Mel rejeitou prontamente entrar sozinha, eu tive que respirar fundo, fazer o sinal da cruz e me espremer para passar pela janela. Quando entrei senti um calafrio e pude ver que Hollywood iria adorar fazer um filme ali. Tinham coisas que pareciam ser dos anos 70 e 80 e tudo com cinco dedos de poeira preta. Teias de aranha por todos os lados construídas pelas avós das aranhas que lá estavam. Da sala onde eu estava (que parecia ser uma garagem de tranqueiras) a única porta estava bloqueada com uma corrente grossa e toda enferrujada. Fiz como aprendi nos video-games, peguei uma pá e fui batendo até arrebentar a corrente da porta. Esta porta deu acesso a uma sala menor que tinham mais três portas. Uma que chutei até abrir, a segunda dava para o exterior onde Mel estava. Tirei a barra de ferro que a bloqueava e saí para trazer Mel. Ela fez uma cara como se estivéssemos na mansão da família Adams. Investigamos o resto da pousada, cozinha ainda com os utensílios, quartos com coisas antigas e a recepção com uma cruz feita de palha na parede. Tudo com cinco dedos de pó e uma colonização generalizada de aranhas grandes. Chegamos à conclusão que nenhum de nós dois iria conseguir dormir tranquilo naquele lugar.

Bem em frente à casa abandonada estava outra pousada, porém não abandonada e funcionando. Resolvi atravessar a pista e ir perguntar o preço. 15 mil pesos (60 reais) por um alojamento sem nada além da cama e sem aquecimento. O lugar também não tinha água quente. Fazer o que... Não tínhamos alternativa. Hospedamos-nos lá e gastamos mais 10 reais cada no jantar. Esse pelo menos valeu a pena. Tanto no Chile quanto no Peru existe a opção de refeição chamada menú, que consiste em um prato de entrada (que normalmente é sopa com batata cozida e pães) e outro prato com a refeição principal. Depois do jantar fomos para cama. A Mel capotou rápido enquanto eu fiquei assistindo um filme no notebook. Perto da meia noite fui ao banheiro e pude notar o céu forrado de estrelas. Fui pegar a câmera e pude registrar algumas fotos.